terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sons do Ano Novo

No quadro a parede
Na parede o retrato
Velho, arcaico e liso
Mas observado
No exato momento
Da virada de um ano
Novo, moderno e iluminado.

Na parede o cinza da desilução
No céu a mistura de cores
No clarão dos fogos.

Lá dentro, o rádio velho tocava
Um som forte e estéreo
Lá fora, o inaudivel
Já havia se transformado
Em histérico!

sábado, 26 de dezembro de 2009

Presente de Natal

Como era bonito o meu balão! Apesar de todos os meus amigos o acharem ultrapassado, nada me saparava do brinquedo mais importante que eu ganhei. Com ele, viajava para todos os lugares que imaginava. Voava longe nos detalhes, ao sabor adocicado dos meus sonhos. Estava decidido: um dia eu seria um balonista!
Nunca me esqueço de quando lançaram o mais novo avião, o PX-350. Todos o acharam encantador, uma verdadeira cópia em miniatura da realidade. Todo branco e cheio de luzes, chegava a brilhar mais que a própria árvore de natal naquele fim de ano. Aquele avião era o mais veloz meio de transporte em nossas brincadeiras. Ele ultrapassarava a velocidade da luz! Brinquedo bobo... Para que eu queria ser mais rápido que a luz dentro de um avião?

Diversão para mim era sobrevoar belos horizontes com meu velho balão. Criar formas, montanhas, vales e amores! Que graça tinha ir de um lugar a outro em flashes distorcidos, sem observar a paisagem? Faltava sensibilidade! Meus amigos tinham sido treinados para não deixar a vida passar, mas ela continuava passando como a própria luz pelas asas daquele avião.

Eu não! Eu fui treinado para observar a vida passar com meu balão. Era tão bom ver todas as cenas caminhando em câmera lenta. Alí sim a vida parava! O homem tenta estreitar seus limites terrenos e eu só tentava explorar a grande vastidão do meu ser. Somente o ar e o calor das emoções bastavam para manter meu balão nas alturas. Na simplicidade do seu vôo, nem petróleo eu precisava. Nunca atropelei ninguém ou perdi minha paciência com sinal vermelho. Eu era LIVRE!

Porém, um dia, meu balão furou e infelizmente não havia mecânica eficaz capaz de concertá-lo. Era impossível salvá-lo naquela momento. Ele foi despencando do céu, colorido, grandioso, até finalmente murchar por total.

- Será que não sabem que é proibido soltar balões? - alguém ainda exclamou.

Ele caiu no meio da Avenida Paulista e lá queimou até o fim. Carros passavam, pessoas andavam, e mesmo assim nenhum jornal nunca noticiou a queda. A poluição embaçava aquela figura agora estremecida, pálida, talvez insignificante; como uma foto desfocada perde seu valor. Depois daquele dia, ninguém mais o viu.
Felipe N.

A última valsa

Voltar à casa dos pais após longos vinte anos de ausência é uma sensação que Fábio não conseguia descrever. A única cena que ainda restava na sua memória se misturava com a movimentação adormecida do último dia vivido naquele local. Uma grande angustia lhe apertava o peito e um gosto amargo começou a embrulhar seu estômago.

Todo aquele sentimento guardado durante anos parecia reprimir seus passos, os quais ficavam cada vez mais lentos até pararem. Um ar gélido abraçou-lhe as pernas. A sala de piso frio continuava idêntica ao último dia. O silêncio o ensurdecia diante de tantas recordações. As sensações foram se tornando sons, vozes, gritos e finalmente imagens. Agora se lembrava de tudo. Pressionou os ouvidos com as mãos, mas não adiantava. Seus pensamentos eram entrecortados, alguns ainda pareciam acorrentados, presos. Havia sido forçado a esquecer...

Olhou para a parede. Teias de aranha e muita poeira davam ao local um tom cadavérico. As rachaduras da madeira velha que formavam o forro acinzentado pareciam contorcer em estalos secos forçados pelo vento que entrava pela janela de vidros quebrados. O tempo foi efetivo com o seu abandono. Por onde passou deixou marcas. Porém, maiores eram as deixadas na vida de Fabio. Sentou-se no chão. Fechou os olhos. Rugas! Começou a pensar...

No ultimo dia, pessoas corriam. Não lembrava mais seus rostos. A vida sempre fora muito sofrida naquela casa. Não eram pobres; os dias que eram cruéis. Mas o tarde era de festa! A manifestação contra a ditadura militar havia sido modesta, não dava para se negar. O bom rapaz, ainda muito jovem, estudante universitário, sorria com um ar de trabalho bem feito. Era difícil mobilizar as pessoas no Brasil. Elas ficam cegas muito facilmente, pensava. Se não por medo, por acomodação ou ainda pior: talvez não queiram dar o braço a torcer, enxergar a realidade. Ele só queria justiça!

Adultos e crianças corriam e dançavam e gritavam. O disco de vinil cantava chiando, mas, em meio a tanta animação, nem se escutava o ruído. E festejavam uma liberdade sonhada por todos. A mãe de Fábio chamou-o para o canto. Ele havia prometido que, se a manifestação desse certo, dançaria valsa com ela. Uma proeza para o perna de pau! - era assim que a mãe o chamava. Ela ria. Por dentro, tinha medo. Ainda estava aflita, como se previsse alguma coisa ruim.

Deram as mãos. Alinharam os pés. Olharam nos olhos. De repente a música parou.

- É a polícia! Você, rapaz, está preso por conspirar contra a nação!

O pai de Fabio estremeceu. Ele era um senhor simples, de cabelos brancos. Nunca gostou de política e não concordava com o filho se arriscando por ela. E agora estava a vê-lo sendo preso. Fabio via seus sonhos e ideais virem abaixo. Foi torturado, preso, passou fome e sede. Por fim, foi exilado após confessar ter encabeçado a manifestação contra a ditadura.

Abriu os olhos. A casa estava suja. Ele, velho. Como haviam envelhecido seus pais? Nunca saberia. Após vinte anos, o que lhe restava era somente sua anistia, o retrato em cima da mesa e, no ar, a melodia da valsa que nunca dançou.

Felipe N.